domingo, 25 de julho de 2010

espasmo de uma labuta - lado B



Pode ser óbvio, mas percebi naquele dia que não se tratava mais disso. Quando encarei aquela luta (normalmente diária) da subida na lata de sardinha humana, comecei a enxergar a situação com um jeito peculiar, eu diria. Era meio dia. Pessoas idosas inseridas na faixa preferencial e a via de acesso para o caminho das asas da borboleta começou a duplicar. Não devido às cabecinhas brancas que passaram a ficar acomodadas nos assentos, mas porque as mãos agarradas ao cano de ferro (ensebado pelo uso diário de milhares de pessoas) transformaram-se em muletas para o meu par de miolos que naquele instante, começara a trabalhar de forma diferenciada ao esperado de costume.

Assim, as pessoas, por sua vez, trataram de evidenciar atributos que até então eu desconhecia em mim (ou até mesmo de conceder esse tipo de identificação racional sobre qual a relação entre aquele trajeto urbano e a vida do indivíduo inserido na massa popular).

Tudo, menos ensejo.

O anseio era outro. Talvez uma subordinação ao fator que tem aflorado em mim nos últimos tempos – pelo menos quando comecei a recorrer a fontes sustentáveis sobre a minha certa habilidade de percepção ao que é intangível. Bati o olho no rapaz com nariz esganiçado, situado acima de todos aqueles que assim o viam e o reverenciavam ao serem submetidos à cobrança por seu conjunto de nariz de bolhas não somente pelo toque, mas principalmente pela necessidade de passagem pela borboleta; e identifiquei que seus olhos deixaram de respirar esperança para ceder espaço às penúrias então apresentadas pelas criaturas com varizes, remelas, brotoejas, perebas e dermatites nos seus respectivos subsistemas. Talvez ninguém havia encontrado o diagnóstico deste trabalhador de forma tão freelancer-pelo-bem, nem sei também se eu gostaria que isso acontecesse, mas, incisivamente, ocorreu. Nada em troca - a não ser meu troco de dez centavos. Visualizei a então Dona Maria Cobradora Progresso em sua casa, debruçada em mazelas do cotidiano, esperando a ampulheta terminar de cuspir areia para que o sono pudesse surgir e, assim, esquecer a imperatriz da necessidade: o que faz sua família trilhar o caminho para alcançar a mais valiosa das necessidades. Hoje em dia, como é que se diz felicidade?

Mas Dona Progresso não se lamuriava pela ausência do cacique no seu barraco do morro, como da mesma forma, descartara também essa possibilidade devido à desistência de sua ‘ninhagem’. Nenhum da dezena buscara alcançar à quilometragem mínima para se chegar aos bastidores do balcão daquela padaria e pedir não pelo pão doce recheado de goiabada. Mas o que ela, Dona Progresso (e mãe!), aprendera no século passado: os sonhos saem de uma fornada diária. E não há quem duvidasse. A desistência pelo rumo imposto pela safra sanguínea fora concedida pela força do ego (de cada um) em insistir por ser dominantemente opressora e ofensiva em relação às indulgências descriminadas para o plano superior. E ela tinha ideia disso. Nem organograma, tampouco planos estratégicos haviam sido vomitados em alusão à chamada “saída de emergência” – isto é, solucionar as demandas geradas pelos efeitos mais simbólicos e menos respeitados na lista de econômicos. Embora Dona Progresso soubesse da necessidade de alimentar os pulmões, seus alvéolos não eram mais os mesmos. Tinha uma escova de ferro no fogão de duas bocas e o cheiro de queimado estava em suspensão. A única forma de apagar o incêndio de sua vida que ela tinha conhecimento era esperar seu marido Progresso do Uniforme Azul chegar em casa. A partilha minimizava os efeitos das rupturas no seu peito. Aliás, eu, à caminho do trabalho, naquele transporte lotado de infortúnios, conseguia enxergar a casa dessa família, o trajeto desempenhado por ele (da padaria na esquina à precariedade da infra-estrutura do local), como também conseguia ouvir sua esposa através das madeixas do pensamento que ele fazia – a quem eu tive “contato”.

Saber se o outro prefere azul a amarelo, se tem um guarda-roupa em casa ou prateleira, se ouve música para dormir ou canta no chuveiro, se espera pelo namorado ou esconde-se dele, se prefere pescar a vender água de coco, se tem dente ou usa dentadura, se gosta de doce ou salgado, se corre nu em casa ou faz isso quando vai à praia. Vai à praia ou pula da ponte do rio-mar? Se o que dorme na calçada está ali por invalidez social ou inutilidade psíquica, se a moça da propaganda sorri de verdade ou ela nem existe, se o casal enamorado se completa ou apenas agüenta por questões sexuais.

Isso tudo enquanto ouço meu som, tento ler o livro indicado para eu conquistar meu espaço na atmosfera à caminho do gera-reconhecimento, ou, se preferir, do trabalho mesmo. Puxo o cordão de nylon esticado no teto, o grito é acionado, a luz acende, o rapaz do nariz esganiçado, chamado Progresso do Uniforme Azul, grita ao seu colega à frente para que a lata de sardinha humana motorizada pare, sem imaginar que sua existência é assistida por muitos. Infelizmente ele não sabe disso hoje para aproveitar mais o contato.

E o efeito é de passagem.

terça-feira, 29 de junho de 2010

espasmo de uma labuta - lado A


O que é um trabalhador senão aquele que sai do conforto do lar em busca de novos rumos para suas aspirações? Ao contrário do que muitos acreditam, custa caro. Dia desses me deparei com dois velhos amigos e nos flagrei contextualizando/contabilizando essa rotina - tomei nota.

O galo mal canta e a sua preguiça começa a se esvair em baixo do chuveiro. Alguns preferem ser rápidos nesse momento, outros aproveitam para programar seu dia ali mesmo, contabilizando os gastos entre um azulejo e outro, com o sabão escorrendo pelo corpo e respingos fortes no nariz. A cabeça se refresca. O pé descalço faz do tapete o protótipo do que as próximas horas serão: enxarcadas de pegadas densas até que se direcione ao prumo certo. Uma caneca suada, um copo gelado, maxilar ativado e lá se vai você encostar o umbigo na pia. Cerdas esgaçadas, cansadas de tirar o limo dos dentes, já nem fazem mais seu papel direito (ou da forma que você deveria ter feito). Então, recorre à cachacinha sabor mentalcalipthus para purificar o ar, hálito. Ao arrumar os papéis, a sombrinha, o fio dental e as moedas, você dá espaço para guardar junto no malote, um pedaço do seu cheiro e todas as mandingas para o dia; enpacota tudo, guarda nos ombros e vai-te embora. Aliás, vai até o próximo abrigo - é ali onde as raças se misturam, conversas desafinadas didalham os ouvidos, mãos ensebadas dão forças ao apoiador de sardinhas na lata - e segue ao local onde te recebem com gosto (afinal, é você quem fará as coisas fluirem dali em diante; e se as coisas fluem, o chefe reconhece, a empresa ganha e quem sabe você também não consiga um agrado no final, antes de chegar no fim de linha?).

Horas passam sem cessar, seus miolos começam a funcionar, sua máquina também: tudo por mais - e você, trabalhador, às vezes por menos. Esse é o jingle mais cobiçado. "I'm love in it" é fichinha. Porque o interessante é crescer, crescer, crescer, crescer! As parafusetas da biboca quebram, você não. A luva rasga, você não. O pneu fura, você não. O filtro congestiona, você não e sua mente nunca. Por isso que a refeição que quebra o dia em duas etapas pode ser 'tapeada' com umas migalhas e outras entre os dentes e pronto. No máximo, um cimento a mais no estômago que é para entalar e a sensação ser a de mais saciável possível. Em outros casos, quando se tem a sorte de ter o prato e a farinha, você come o pescoço da gaLinha sem nem dar conta da asa e do peito. Pra quê? Quanto mais entalado, esgotado, esvaecido melhor. Isso faz parte da falsa sensação de consumado. Você é o consumido.



"Como arroz e feijão, a vida é feita de grão em grão".

quinta-feira, 24 de junho de 2010

nova graduação - do tipo suicída

(p.s.: Prepara-te, devaneio é assim mesmo).


Até que ponto deve-se interferir no ponto de vista de pessoas que você admira? Quando existe liberdade de expressão o suficiente para dizer o que se pensa, sem refletir sobre as possíveis (e talvez previsíveis) consequências? Ou quando existe algo que te faz envolver-se demasiadamente e por esse motivo existir, você acaba exprimindo toda sua opinião? Me questiono se ainda não há uma graduação para ensinar tais modos.

Seja em relação a um caso amoroso, a uma dúvida do que é prioridade e à questão de afetividade, você, enquanto possuidor de laço fraterno com outro indivíduo, acaba se posicionando fervorosamente sobre o dilema que estiver em pauta (ou não). No instante da conversa, a questão não é solucionada, embora também não seja discutida em vão. A problemática reside em si a partir do momento em que existe respeito e gratidão à pessoa em questão e você, o terceiro personagem, começa a querer narrar a história do ponto de vista que seja o mais respeitável e digno possível, com um viés direcionado ao bem desse outro indivíduo. A trama não envolve pessoas estranhas (pelo contrário!), trata-se daquele seu amigo de todas as horas (como queira interpretar). Do sorvete na esquina em um dia chuvoso, à risadas aleatórias em situações (in)apropriadas. Seria, portanto, alguém de prestígio. E você poder acompanhar a trama de perto e longe é esquisito - ainda mais por ter a responsabilidade em emitir uma opinião que trata da persona deste amigo, irmão, qualquer um da árvore genealógica, bróder, coligado, mano, truta, fuckdjunqs, enfim, trata-se da felicidade (ou não) dessa criatura.

Pede-se o seu ponto de vista.
Você emite opinião. E a partir do momento em que você percebe que este posicionamento interferiu (ou não) no andar da carruagem da trama, sim, se você for ser humano de verdade, o seu coração aperta por conta da expectativa. O papel da amizade não extingue nenhuma palavra do vocabulário, é fato. O amigo interrompe o pensamento do outro para mostrar o que pensa e avalia ser certo e justo para que este, por sua vez, pondere. O coração, a alma, a mente, o ouvido de ninguém é pinico, eu sei. Mas se você foi designado a dizer o que pensa... E aí? Graduar-se na faculdade de Abstenção dos Problemas Inter-Pessoais do Seu Próximo seria o caminho? Solução pequena, mesquinha. É preciso fugir desse tipo de sala de aula, com urgência clínica. Abster-se a algo quando se trata de amizade - seja ela conjugal, familiar ou inter-pessoal - é assinar um documento suicída. E acredito.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

berradeira de viola


shouting

Esse tempinho cinzento, todo chuvosinho, dá uma vontade de berrar aos quatro cantos o quanto você é viva; o quanto que se sente poesia ao respirar mesmo que metástases humanas. Vuvuzelas não, sons de berrantes saltam-lhe o peito como forma melódica de entoar a batida da sua rotina, numa mescla de cor, cheiro e sentido.

É desse balaio que parte da minha composição é feita, com direito à muita forma e conteúdo, pronomes pessoais sublimes, condições imperfeitas que se tornam conjugáveis e sintaticamente aplicáveis.

Basta acordar todos os dias para sentir o que se sente e gritar - é disso que eu trato.

domingo, 13 de junho de 2010

do cansaço ao esclarecimento

Ponte de acesso

Hoje eu acordei com um estalo na cabeça, foi o barulho e a intensidade dele que me fizeram mover esse corpo enorme de cima da cama e levantar. Mal abri os olhos e vi o meu cansaço do lado de fora, como se estivesse na minha frente, pedindo que eu o socorresse, pois ele não queria se cansar vivendo desse jeito dentro de mim. Eu tentei ajudá-lo, mas ele toma muito espaço e talvez por justamente se chamar cansaço é que suas entranhas sejam tão esquisitas e mal concentradas. Aliás, não-concentradas. Todos seus mecanismos, cheios de dificuldades de acesso e inoperáveis, fizeram com que eu realmente nem fosse de encontro. O que evitou a duplicação do cansaço. Forças estranhas, que não colaboram com o seu crescimento, tampouco com sua realização, felicidade e desenvolvimento, se apropriam com maior facilidade ao seu corpo que exala cargas positivas com o intuito de carregá-las da forma mais conveniente possível.
Mas... (sobe som de super-herói) Eu percebi que o cansaço queria mesmo alugar meu corpo para fazer-me de ferramenta à sua ociosidade plena e... o que fiz? Comi chocolate até a orelha. Em seguida, fiz uma pequena meditação com o intuito de canalizar minhas forças em prol da unificação de mim mesma e me conduzi ao lugar certo. Levei o namorado da minha melhor amiga de infância comigo. O melhor namorado de amiga de infância que tenho. Um querido! Um doce. Um fotosensível (é assim que se escreve?) suave que procura sua melhor atuação em formato de gente. Recorreu à mim e, honrosamente, o levei comigo para uma reunião na qual me sinto acolhida. O que aconteceu? Ele saiu renovado espiritualmente, menos confuso, melhor orientado e com o faro ainda mais apurado. Agradeço-lhe pela ponte de acesso que ele criou naquele momento (sem mesmo perceber), me ajudando a esclarecer uma dúvida terrena infantil, mas inquietante que tinha.

"Os erros são feitos por falsos prazeres", via Breno Moura, o cara citado acima.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Beijo na testa


Bom mesmo é ter a oportunidade do seu trabalho envolver mesmo que poucos, mas profissionais competentes e capacitados; com recheados momentos vividos a serem compartilhados. O lado do jornalismo que eu mais gosto é justamente quando esse envolvimento começa a ir além da visão semiótica, fazendo de uma simples ênclise, o viés a ser destrinchado pelo dia a dia.

...pausa...lapso...senso...retomada...


Falava de prestígio. Queria ressaltar como aprecio profissionais que realmente contribuem para o desenvolvimento de algo, nem que seja o dele próprio; imagine de outrém. Em homenagem à isso, a recitação do poema "Consulta Médica" de Hermes Fontes e um beijo na testa denotam um significado que talvez poucos poderiam apreciar..


E tenho dito.

Foto: Google Images

quarta-feira, 19 de maio de 2010

airofue


De acordo com o dicionário de português online, o significado dessa palavrinha rica em vogais também é de sensações. A pessoa fica eufórica por motivo de satisfação e de grande alegria.

Definição de Euforia
Classe gramatical de euforia: Substantivo feminino [s.f.] - Sensação de bem-estar, de satisfação; grande alegria.

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A partir do momento em que você acredita que três meses serão noventa dias de aprendizado, com direito à rosto na lama, você fica assim, com o coração parecendo a zabumba de São João, a mente psicótica - que não para de te responder a sensações esquisitas e até esquisofrências - e nada mais faz sentido senão algo que realmente te acrescente e te proporcione crescimento espiritual. O lance todo é que as pessoas hoje em dia estão em falta com isso. Quanto mais descaso você der a si mesmo, mais inteligente as pessoas pensam que és. Ok. De onde vem o senso? A calma já me deram a procedência, mas essa sensibilidade em observar com destreza o que a rota da vida quer te dizer, é complicado de enxergar. E os que vêem são cegos.

*Foto: http://fotos.sapo.pt

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Santa Paciência viajou para longe


Fiquei ansiosa durante aquele dia todo para poder encontrar os amigos no fim das minhas atribuições, mas, sob a intervenção de apenas um, meu gosto foi por água abaixo e... ainda bem! Tinha aula no dia seguinte - nessas horas eu percebo como isso se torna justificável para a nossa consciência. Às vezes preciso de alguns empurrões do tipo para conseguir enxergar o que o espelho grita diariamente... mas uma vez míope, sempre com visão turva. E é o que realmente acontece.
Tem acontecido.
Não sou mais aquele ser humano dotado de litros e quilos de toda a paciência do mundo, cujo intuito sempre tinha a ver com a predisposição dos outros. Sim, era muita importância dispensada a criaturas que, logo em seguida, me dariam aquela cotovelada "sem querer" na boca do estômago - a mesma que damos quando subimos no ônibus coletivo e identificamos uma situação da qual precisamos agir. Então!
Essas intervenções me cansam.
Têm me cansado.
Acho que estou contando com a regressiva de tempo para o ano que vem. Não sei mesmo o que meu subconsciente tem planejado. Quer dizer, sei sim e tentei explicar.
Já não respiro mais a poesia das coisas que me representavam à vida, nem faço lá muita questão. Tenho achado muito pertinente acordar, sorrir e dormir para conseguir sobreviver e o quê? Chegar até o ano que vem, como eu disse.
[Depois que nossos rostos ficam à disposição da não bondade dos outros e levamos aaaltas na cara, ficamos assim. Nem se iluda.]
Mas é isso.

Sem paciência para os "muito doidos" que surgem na minha vida e que insistem em se envolver comigo. Até caio nessa, mas tenho tido uma percepção mais aguçada sobre essa perspectiva e me cobrado ações mais decisivas quanto a isso. O cara que se habilita a ser "bicho grilo" a essa altura do campeonato (da vida!), para mim só é aceitável quando ou é muito inteligente ou sabe tirar proveito da famosa tríade woodstockiana setentista. Não é a toa que tenho um amigo muito específico que cabe diante do contexto; não o aturo, porque faço mais que isso: o respeito e justamente nesse sentido que ele é um dos meus melhores. Tem minha consideração por saber conciliar tamanha inteligência com as maluquisses empregadas pela própria vida que o mesmo as atribui e ainda encorpora. Desde o ginásio...

Já outras criaturinhas, bicho, sem tesão nenhum para tentar aturar. O bom é que a pessoa que deveria ler tudo isso, não dá a mínima para esse hábito, se confunde nos pensamentos, não consegue agir com eficácia e acha que sabe de alguma coisa. Dá uma dó.
E a minha santíssima paciência, que deveria me rodear, pegou suas roupas no varal da vila do Chaves, já arrumou suas trouxas, conseguiu carona com o pica-pau e foi para muito mais longe que o mundo subterrâneo da Alice da nova juventude. A minha paciência atravessou gerações... tá muito longe, inclusive, de ser (re)conquistada.



*Os mais sábios me dizem que esse relato e outros tantos formam um conjunto típico para a idade. Quando o caju deixa de ficar travando, sabe?


Imagem: universo Google

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Desversificando-me


Sentido disperso, viajante
quer dizer, melhor que isso - no sentido denotativo da coisa:
vagante.
Ao tempo em que preciso de propostas,
(das mais indecorosas)
percebo que quanto menos as tenho,
mais certeza tenho sobre o meu futuro incerto.
É preferível. É mais digerível, eu diria.
Me sinto menos e mais ao mesmo tempo.
- Euforia na hora do turbilhão de sentimentos aflorarem -

Mas também não prefiro sentir-me
dependurada em um canto oco da vida,
atrás de um ponto de ônibus lotado de esperança tangível;
quero decidir qual a melhor dança para o sapateado
mesmo sem saber rezar.

Quero me ver, me encontrar
sem me trair, mas podendo espernear.
Não quero não saber o que fazer deliberadamente;
penso que nesses casos seja necessário assistir tantos erros cometidos
para desaprender a repetí-los.

Sem (des)culpas. Sem poréns.

*João de Santo Cristo tava no meu ouvido enquanto tentava vomitar essa cadeia de palavras.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Kit limpeza para a picaretagem


Será que agora com o texto-base do projeto "Ficha Limpa" o cardápio de candidatos políticos vai ficar mais restrito e selecionado? Bem, se isso significar ter que colocar aqueles que tem antecedentes criminais de escanteio, pode-se dizer que ameniza sim. Mas se a lei não foi sancionada e só houver o projeto, será que o povo vai se importar com a relação dos políticos que já colocaram a mão na massa em falcatruas e que isso vai interferir na hora do voto? Bem... existem perguntas e respostas que nos remetem a uma outra história.

Escovões, vassouras e baldes gigantes foram as ferramentas utilizadas pelos manifestantes na rampa do Congresso para pressionar pela votação do "Ficha Limpa".

Projeto

A Câmara dos Deputados votou, por 388 votos contra um, o texto-base do projeto que veta a candidatura dos políticos com condenação na justiça, o chamado "Ficha Limpa". E, além disso, levou um peso extra no dorso: mais de 2 milhões de assinaturas foram colhidas a favor do projeto (confira) - número atingido às 22h40 do dia 3 de maio (em seguida, o projeto foi aprovado). Na ocasião, a ONG que fez os preparativos para o ato, Avaaz.org, realizou um protesto na capital do país com os nomes de todos os brasileiros que pressionaram a Câmara pela aprovação do projeto.


Foto: Givaldo Barbosa / O Globo

terça-feira, 30 de março de 2010

Feixe irradiante


Fenômenos acontecem, isso é óbvio. O mais interessante nesse caso é que as pessoas atribuem qualquer manifestação à natureza e... pronto! Acaba esquecendo do poder que 'as luzes' influenciam sobre os homens, nessa atmosfera mediana na qual vivemos intempestivamente.

Levando em consideração esse aspecto, imagine-se em meu lugar: como um dia qualquer, você olha para o céu por olhar, por contemplar - sem muitos motivos óbvios, apenas por gostar de apreciar o que é bom e que lhe faz bem - e eis que a lua sorri mais para você do que o costume. Resultado: uma circunferência perfeita e simétrica englobando a gorduchinha irradiante fixa-se no céu por muito tempo (e suficiente para você devorar um sanduíche gigantesco com engordeirante livre e fritas acompanhada de seu amigão). Agora, o efeito que o céu photoshopou naturalmente, criando um espetáculo emocionante e envolvente, é simples: tem referência ao que é divino e maravilhoso. Apenas.

*A figura que ilustra o texto, suguei do Google Images, e achei que foi a mais próxima do ocorrido; já que o flash da minha câmera nunca alcançaria o feixe irradiante que entornou a lua no último domingo.

terça-feira, 23 de março de 2010

Conversa séria - constelando


O que é mais importante: a felicidade ou o momento?
Com a primeira você vive tudo, inclusive a intensidade daquele que a vive atribui. E do momento você filtra o passado que já foi, o futuro que ainda não é, para só então reconhecer o presente que se vive. Por isso que o mundo às vezes é pequeno para tantas cabeças que pensam e conversam entre si.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quanto custa a verdadeira felicidade?


Já nem sei mais quantas vezes assisti o filme Into The Wild, mas hoje fui na versão dublada; e, acredite, até assim o filme consegue ser maravilhosamente perturbante e dócil - em todas as situações fiquei inquieta com a mensagem fisgada.

É baseado em história verídica de um cara que atravessa seu país em busca de seu sonho. Enfrenta os medos impostos pela sociedade, descobre a generosidade até então nunca vista, percebe que a sabedoria é vindoura e assim o filme transcorre, como se fosse um livro - demonstrando todos os ensinamentos que ele vive e enxerga à sua volta. No final das contas, o expectador percebe que ele foi mais feliz em dois anos intensos nos quais ele atingiu seu objetivo e solidão, totalmente into the wild, do que se somasse tudo o que vivera dali para trás em 23 anos.



"Hapiness only real when shared"

"If you want something in life, reach out and grab it!"

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sensação: esmagamento


Estava parada, sem redomas, apenas sentia o vigésimo pôr-do-sol do dia, quando de repente, alguma coisa pulou em cima de mim e me agarrou; invadindo meu rosto, pescoço, braços e minhas pernas. Fixou-me algo nos olhos que nada mais pude enxergar naquele momento. Porém, esqueceu-se de que a "memória é uma ilha de edição" e tudo o que vivera até ali havia sido armazenado com direito a melodias, cheiros e sabores.

Nada mais a mim importava.
Do jeito que me deixara, continuei. Continuei pálida, fria, congelada. O castelo logo desmoronaria e essa alguma coisa perceberia que o sentimento é inalcançável, assim como as cores multifacetadas que brilharam na minha pupila durante as expressivas passagens do sol pela minha janela. Repentino? Não. Duradouro.

- O bule já sinalizou novo estado de emoção do que ele armazena em si..inside.

- Isto é, sem amarras, pois já era hora de levantar para encarar a maestria do dia lá fora.

- Bom dia!


Foto: RPassos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Rememorar

A exigência que eu tenho com os fatos que acontecem no presente e que logo torna-se efêmera e coisa do passado geralmente passa despercebido por aqueles que não acreditam nisso. Confuso? Não. Somente que existem pessoas que acham as manifestações corporais muito mais apetitosas que um sucumbido calendário pendurado na parede da cozinha que remete à um convite (in)esperado. Mais ainda: que só tem valor aquilo que eles (estes os quais direciono esse pensamento) deduzam que tenham; até porque a folhinha que marca os dias do ano é tão passageira quanto ao corpo que reage a alucinógenos baratos e por aí vai.

Por isso (ou não), compartilho um espasmo que tive na mesa molhada de um bar com um amigo transcedentista, em agosto de 2008, em meio à "tempestade de devaneios" que tivemos juntos:

- Essa história de esquecimento parece mesmo perder-se no meio da avenida atropelada por analogias olímpicas, principalemnte quando duas mãos anormais estão submetidas ao placar decisivo do que se pode ser sentido. Ponto final talvez não seja bem-vindo, mas, porém, contudo, todavia, gnomos surgem sem perceber. E aí? Maçã? Bem..pode ser!

- Um cigarro e um vinho, talvez uma batida pra aquecer.

...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ouvi(ndo) por aí


- Ninguém entendeu. Aquele domingo que trouxe a chuva, em companhia dos relâmpagos e trovões para o início da noite, foi justamente com o intuito de tranquilizar a alma de muitos que têm sentimento puro (ou seja: misericórdia) e que vêm para essa escala da vida a fim de nos equilibrar.

- É tenso...

- A chuva mitiga os poros abertos daqueles que sofrem. Muitos não percebem ou fazem-se de desentendidos. Tudo é tão divino e maravilhoso...basta apenas prestar atenção no refrão e ficar atento à sorte, sem temer a morte.

- É, tenso.

- E acredita quem pode.

sonhos e abrolhos

Tenho andado distraída com tudo. Esse momento de renovação de contrato com a vida é intenso demais e às vezes me deparo com situações que eu nem queria passar. Na verdade, preferiria que as partes onde há espera fossem puladas como quando eu brincava de escalar pneu em tempo de colégio, em que a regra era básica: um salto atrás do outro.

O tempo não para e as minhas vistas não são mais as mesmas em relação à tudo o que ocorre ao meu redor. As vértebras estão preocupadas com o amanhã e ninguém consegue me responder mais nada.

Fatos ocasionalmente especiais que perduram a vida inteira, mas que, no entanto, são vindoiro apenas para os que enxergam em uma dimensão superior a esta. O que é raro e muitas vezes espero demais que aconteçam. Por isso que uma coisa é certa: vou atrás de mim.

Parece nada com nada, mas sou eu com uma pegada intimista de leve, onde tudo pode(ou não) ser sonho e abrolho.

domingo, 15 de novembro de 2009

t a r p í c u l a s 3

Muita, tinha muita gente. Pessoas não-sonoras em todos os sentidos. Eu não consegui me reconhecer naquele espaço até um cara aparecer com sua mochila desengonçada, cheia de histórias, garrafas e aspirações. Destacou-se. Sua cabeça era um livro com subtemas aparentes e relacionados à toda e qualquer etapa que uma vida pode enfrentar. [O cara era colorido e o resto, preto e branco].
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O relógio toca!
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A tristeza surge, em um dado momento, para provar que o real vivido não é, absolutamente, o que se tem no imaginário. Daí você é acometida por esse sentimento trivial, sujo e frio e a única percepção que lhe é criada em mente é a de que também está inserida em meio àquelas pessoas cinzentas, sem meio reconhecimento.
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Destaque.
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No primeiro momento sim, pois os movimentos refletiam-se em gestos sonoros e com pigmentos de cores, mas é assim que se descobre que a associação é apenas uma associação.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

epiderme


Ouvi dia desses que atribuir sinceridade aos sentimentos é motivo de piada.
É como se não acreditasse mais e nem desse importância ao combustível que confere ao ser humano. Sua apropriação é dada em determinadas etapas da vida, nas quais você pode interpretá-las das mais variadas formas, inclusive àquela que, na sua concepção, é digna de retratá-la com o seu ponto de vista - é como se uma identidade visual fosse criada a partir do que se é vivido e encarado como etapa fincada em si. Tem coisas que a gente não explica, mas de vez em quando, tenta-se para fazer o outro entender e compreender do que há na sua composição. No entanto, tem horas que comentários escrupulosos são tão meticulosamente pensados, que a vontade de dizer alguma coisa é subtraída pela vontade de arremessar a pessoa no rio, por exemplo. Mas depois você solta o cabelo, desabotoa a calça e a camisa para pular logo em seguida, mostrando na prática, o valor desse sentimento, dessa atribuição, dessa identidade.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

como anda o seu léxico?


Certa vez ouvi um camarada dizer que "é dois", no sentido de afirmar sua condição diante do fato anunciado. Não é de se espantar, eu sei. No entanto, parei, acendi um cigarro e refleti. Cara, o ser humano consegue pensar em si até mesmo sabendo que o numeral pede plural, pede continuação.

-Que frio.. BrRrrr
-É dois!

Torna-se dois por associar-se a alguém, porém, o verbo conjugado no presente, em sua primeira pessoa do singular, justifica a afirmação anterior ao exemplo.

Linguística: Prôfa Ester Chimarrão Mambrini


Imagem: Kelly Nuñez, um achado googlístico