quarta-feira, 25 de junho de 2008

Liberdade por acidente


Quem nunca teve vontade de criar asas e sair voando por aí? Sentir esse ventinho no rosto, ter vez ou outra um calafrio por dentro e fazer vigorar a sensação de liberdade?

Já que, enquanto humano, criar asas de uma hora para outra é tarefa impossível, o mais indicado é aliar-se aos artifícios que facilitem e se aproximem dessa atmosfera – como muitos esportes radicais que propõem momentos de contato próximo com a natureza; de rappel, bungging jump, salto livre à asa delta e pára-quedas. Mas, para o padre Adelir De Carli, de 41 anos, essas facetas não seriam suficientes para promover “apoio espiritual” e demonstrar sensibilidade aos caminhoneiros da ‘ação pastoral rodoviária’ (disse ro-do-vi-á-ria e não aérea!!) com a qual acostumou-se receber créditos sociais à sua reputação; em Santa Catarina.

Ele precisava inovar para atrair a atenção da sociedade brasileira. E, assim, demonstrou toda preocupação em relação à vida desses motoristas – talvez o sofrimento que eles passam durante dias nas estradas o fizesse pensar acerca da situação atual da humanidade; num contexto geral. Ou não.

Para tal sensibilização, no início de Abril desse ano, o padre aderiu ao vôo livre (literalmente: liberto de segurança, de proteção pessoal, além de credibilidade e de amor à vida): utilizou 500 balões coloridos de festa infantil, à hélio, fez uma trajetória de 110 quilômetros. Conseguiu permanecer ileso, alcançou a tão sonhada liberdade de voar e, de quebra, estourou a admiração de muitos fiéis!

Os religiosos de carteirinha que me perdoem, mas é incrível como vocês têm a necessidade de demonstrar amor ao protagonista da Bíblia através de atos sórdidos e macabros. (E é impressionante como existem pessoas que relacionam profunda coerência a essas atitudes! Dirá, então, àquelas que têm um padre (que comanda alguma capelinha no interior do Brasil) com corpo presente e encabeçando tal saga com o terço no coração!?

Certa vez, disseram-me que não era preciso sequer ir à igreja para ficar em paz com Deus, mas que se alguém quisesse aproximar-se dEle para garantir o tal "lugar no céu", seria interessante que fizesse uma contribuição de leve na caixinha de dízimos – ora, essa é uma das partes fundamentais desse tal negócio! Bem, mas se muitos religiosos têm freqüência assídua em tantas igrejas o motivo é, também, por não possuírem um espaço digno dentro das vertentes que preenchem o perfil de um cidadão comum. E, assim sendo, a teoria mais exata é de que, sim, é preciso idolatrar gente que tem idéias insanas para promulgar de qualquer jeito o espírito catequista. Afinal de contas, o universo religioso é contagiante!

Não bastasse a façanha número um para promover a fé, o padre Adelir (com codinome Radical), preparou algo mais aprofundado para a lua cheia no final do mesmo mês. Se antes conseguiu viajar de uma cidade para a outra, dentro de Santa Catarina – De Carli saiu de onde morava em Ampére e foi pousar na divisa com a Argentina, em San Antônio depois de permanecer durante 4h15 ininterruptas no ar –, então, por que não conseguiria passar umas 20 horinhas flutuando na atmosfera até chegar ao seu próximo destino, no norte do estado? Bem, pensando nisso, a esperteza do quarentão resolveu ir além...E a quantidade de balões cheios de gás hélio foi duplicada.

Com mil bexigas de cores alegres e vibrantes, o religioso buscou o limite com a certeza de que garantiria o mesmo sucesso que obtivera na proeza anterior, esbanjando assim, sua vitalidade permanente depois dos seus quarenta anos vividos. Mas infelizmente deus não dá asa ao ser humano – tampouco por duas vezes consecutivas!

Depois de participar durante um mês e pouco de um curso de vôo livre, o padre fora expulso devido à sua falta de paciência com as aulas teóricas. Com esse espírito de pássaro incorporado, ele bem que conseguiu chegar até a fronteira argentina, porém, permanecer durante 20 horas suspenso no ar, por bolas de assopro, e agora com a rota apontada em direção ao sentido oposto, em pleno tempo de temporais, seria um ato não recomendável.

Até o presidente da Federação Paranaense de Balonismo o aconselhou a não se aventurar de tal maneira. Nem com reza e devoto de santo forte, a natureza poderia perdoar: vento e tempestade (que o empurraram para o sul, em direção ao mar) compuseram a cena da tal lua cheia do dia 20 de Abril. Para o padre, esses fatores meteorológicos até que poderiam ter sido sintomas de sucesso à sua viagem econômica e ambientalmente correta. Mas, para os que têm noção do perigo que todos os humanos estão aptos a se deparar, decolar por conta própria, decidindo duplicar a quantidade de balões de maneira tão aleatória e insensata, seria sinal de uma possível catástrofe em sua rota tão sublime - porém real e aérea!

Para o Sermão da bem-aventurança, acrescentaria um verso duplicado: bens aventurados aqueles que depositam fé dentro de bexigas com cores felizes; e bens aventurados também são aqueles que se aventuram por pastorais, com gestos insólitos, amém!

Um comentário:

Arthur Henrique disse...

Krekeu, poxa velho, vc me mata de orgulho desse jeito...
o bom é que a cada texto que eu leio fico mais proximo de chegar um dia a dizer:
¨olha mell ta vendo aquela jornalista famosa ali? ... é amigona do pai¨

:D

com relação ao texto, não concordo com tudo... pq em materia de religião nao cabe generalizar por atos isolados ...
mas respeito...
e a forma com que foi dito... foi apaixonante..